A Cabanagem foi o movimento popular mais violento que eclodiu no período regencial (1831-1840). A revolta começou na madrugada do dia 7 de janeiro de 1835, conforme o Dicionário Brasileiro das Batalhas, com a tomada do quartel de artilharia e do palácio de governo do Grão-Pará, na então cidade de Santa Maria de Belém, capital da província. A adesão ao Império do Brasil, em agosto de 1823, fora muito traumática, de modo que a animosidade contra o governo continuou a afluir por todo estuário do Amazonas, em cada ponto da província.

A elite paraense queixava-se de não participar das decisões locais e do abandono que fora relegado o Grão-Pará pelo Rio de Janeiro. Já a população pobre, constituída de índios, negros (escravos e libertos) e mestiços – os cabanos – clamava por melhores condições de vida, devido a extrema miséria em que vivia às margens dos rios, ilhas e igarapés em pequenas cabanas de palha. É nesse quadro que Bernardo Lobo de Souza é nomeado presidente da província, em dezembro de 1833.

O ano de 1834 seria marcado por hostilidades entre o governo e os cabanos. Tais hostilidades chegam às margens da intolerância, quando Lobo de Souza, com seu temperamento autoritário e explosivo, instaura a perseguição e manda prender as lideranças cabanas. A maior autoridade entre os cabanos, desde a adesão do Grão-Pará ao Brasil, era o cônego Batista Campos. Para não ser preso, o cônego se refugia na fazenda de Félix Clemente Malcher, de onde passa a planejar a tomada do poder junto aos demais líderes. O fazendeiro e dono de engenho Clemente Malcher fora aprisionado.

O cônego Batista Campos, entretanto, veio a falecer no dia 31 de janeiro de 1834, dias antes da eclosão do levante, devido a uma infecção causada por um corte no rosto ao barbear-se com uma navalha. As forças do governo ainda comemoravam a sua morte, quando tropas cabanos e da guarda municipal, comandadas por Antônio Vinagre, iniciam o levante. O presidente Lobo de Souza e o Comandante das Armas, tenente-coronel Joaquim José da Silva Santiago, são brutalmente assinados e seus corpos profanados, depois de arrastados para frente do palácio do governo.

A barbárie toma conta de Belém: os cabanos executam os oficiais e soldados que resistiam ao levante, apoderando-se das armas e munições. Não obstante a libertação de Clemente Malcher e sua elevação a presidente da província, os cabanos marcham em caçadas sangrentas aos portugueses e àqueles que julgavam não “patriotas”. Muitos prédios comerciais e residenciais são invadidos e saqueados, e as mais terríveis e repugnáveis atrocidades executadas.

De temperamento rude, Malcher não consegue controlar a desordem. Também não demora entrar em conflito com o Comandante das Armas, Francisco Pedro Vinagre. Então, ao acusar e mandar prender o jovem líder cabano Eduardo Angelim “por conspirar contra o governo”, Malcher acaba por sucumbir às tropas de Francisco Vinagre, após intensa batalha que dura todo o dia 19 de fevereiro. Já no dia 20, Malcher é covardemente assassinado a caminho da prisão, enquanto Francisco Vinagre assume o governo.

Em junho de 1835, após longa pressão do clero paraense, Francisco Vinagre acaba por renunciar a favor de Manuel Jorge Rodrigues, indicado pela Regência para presidente e Comandante das Armas. No entanto, Manoel Rodrigues não consegue pacificar a província, como também deixa de cumprir o acordo de anistia, mandando prender Francisco Vinagre. No dia 14 de agosto, após nove dias de combate, os cabanos retomam Belém, sob o comando de Eduardo Angelim e de Antônio Vinagre, este último morre em combate.

Os cabanos assumem novamente o governo do Grão-Pará, mas muito sangue ainda seria derramado, pois o conflito só termina em 1840, cinco anos depois.

NOTA: Continua com o artigo “Da pacificação ao extermínio”.

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