Com a morte de D. Sebastião ainda moço na batalha de Alcácer-Quibir (1578), seu tio-avô e parente mais próximo, o cardeal D. Henrique, é elevado ao trono português. O rei D. Henrique I, o Casto, veio a falecer pouco depois, em janeiro de 1580, sem deixar descendente e concluir a escolha do herdeiro na linha sucessória. A disputa ao trono resultou em uma crise, que acabou por ascender o rei Felipe II da Espanha ao trono português, por ser filho de uma princesa da casa real de Portugal.

A historiografia moderna portuguesa nomina a unificação das coroas lusa e espanhola como União Ibérica, ou Terceira Dinastia, a Filipina, por compreender os reinados de Felipe I (II da Espanha), Felipe II e Felipe III. Durante o período dessa unificação dual o soberano indicava o vice-rei de Portugal, escolhido entre a nobreza lusa, de modo a manter a autonomia administrativa e a jurisdição sobre as colônias do além mar, inclusive dos brasis.

Até então, os territórios da atual região sul do Brasil e do Uruguai encontravam-se praticamente inexplorados. Toda a costa era inóspita, tremulada pelo vento e muito arenosa, com raros pontos naturais para ancoragem das embarcações. Nela não havia pau brasil, nem vestígios da existência de ouro, prata ou qualquer outra riqueza a ser explorar. Mas a descoberta das minas de prata de Potosí, no atual território da Bolívia, despertou a cobiça de Portugal por esta extensa área e pelo acesso ao rio da Prata.

O Tratado de Tordesilhas delimitara aquela área do Atlântico Sul à Espanha. Porém, com a unificação das coroas as fronteiras foram naturalmente abertas aos portugueses. Em pouco tempo os comerciantes lusos passaram a dominar o comércio de escravos e de todo tipo de mercadorias necessárias às povoações que iam se abrindo na bacia do rio da Prata e na direção de Potosí, que se tornaria uma das mais populosas cidades do mundo.

O comércio em Potosí e em todo seu entorno tornara-se extremamente lucrativo, pois a cidade dependia de tudo para a sobrevivência de seus habitantes e a extração da prata. Isto suscitava constantes protestos dos comerciantes espanhóis contra os portugueses, principalmente os cristãos novos, chamados de peruleiros.

As incursões portuguesas, entretanto, não se limitaram às rotas do Prata e de Potosí. Pelos sertões os bandeirantes paulistas cruzaram as fronteiras do sul na caça aos índios, a fim de vendê-los como escravos. Inicialmente foram sendo devastadas as tribos selvagens, com o apoio dos bugres aliados, que não se intimidavam em lutar em batalhas deveras sangrentas. Logo depois os bandeirantes alcançaram as reduções dos jesuítas espanhóis no atual Rio Grande do Sul e na fronteiras com o atual Paraguai, nas regiões de Guairá e Itatins.

Lá os bandeirantes arrasavam tudo que encontravam pela frente, na ânsia de capturar os guaranis catequisados pelos jesuítas, já adaptados ao trabalho na construção civil, na agricultura e na criação de gado das missões. Segundo Ana Lopes e Carlos Guilherme Mota, em “História do Brasil – Uma interpretação”, entre os anos de 1627 e 1640, os paulistas trouxeram mais de 100 mil cativos.  Uma das operações escravistas mais predatória da história moderna, nas palavras do historiador Luiz Felipe de Alencastro.

Em dezembro de 1640 a monarquia portuguesa é restaurada, com a posse de D. João IV. Os bandeirantes paulistas já não desciam ao sul em busca de escravos, pois as reduções haviam sido abandonadas pelos jesuítas nos territórios rio-grandenses e do Guairá. O gado disperso – chamado de xucre ou chimarrão – começa a procriar livremente, tornando-se bravio. Estava ali a base econômica que em anos mais tarde determinaria a demarcação das fronteiras do sul.

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