Durante o reinado de D. Manuel I (1498-1521) o Brasil permaneceu quase intocável. Não fora encontrado nenhum vestígio da existência de metais preciosos ou outro produto atrativo de fácil extração. Somente o pau-brasil, utilizado como corante nas indústrias de tecido europeias, valia a pena ser explorado, embora o lucro fosse menor que o do comércio dos produtos do oriente.

Em 1498 Vasco da Gama havia encontrado a rota pelo Atlântico para o Índico, o que barateara o preço das especiarias (espécies de temperos) e da seda na Europa. Isto impeliu o comércio português, que se voltou para o oriente. A Coroa portuguesa, então, resolve arrendar o Brasil a um consórcio de comerciantes capitaneados por Fernão de Noronha, em 1502.

O arrendamento inicial foi de três anos, provavelmente renovado depois por outros períodos. Cabia ao arrendatário estabelecer uma feitoria e prover a defesa da costa brasileira dos contrabandistas e invasores, além de pagar a Coroa um quinto do que fosse apurado da venda do pau-brasil e de tudo mais que fosse explorado.

A madeira era dura e difícil de ser cortada e transportada, tanto pelo peso, como também pela densidade da floresta, que parecia indômita. Mas, com a utilização da mão de obra nativa, o negócio tornava-se lucrativo. Não tardou, portanto, a começar os primeiros conflitos entre os nativos e os exploradores.

Os primeiros contatos foram para os nativos um verdadeiro vislumbre e encantamento. Os presentes, as roupas e armaduras – vistas como adornos -, as armas e ferramentas de metal, o modo de viver e a aparência do branco foram-lhes também divertidos e fascinantes. Porém, os maus tratos e a exploração do trabalho mostrar-se-lhes-iam intolerantes.

Por outro lado, o primeiro assombro do invasor foi a antropofagia. Os inimigos eram literalmente comidos por toda tribo em um ritual festivo, na crença de assim herdar-lhes a força e as virtudes. Antes, porém, levavam uma bordoada de tacape na nuca, que lhes expunham os miolos e o sangue. Este era espalhado no peito das mulheres que amamentavam e depois servido aos futuros guerreiros, no intuito de fortalecê-los.

Entretanto, os nativos não se furtavam em ceder suas mulheres e filhas em demonstração de amizade ou em troca de algum presente interessante, quando estabeleciam alianças. Daí a estratégia do invasor em selar laços de amizade com algumas tribos, com a finalidade de derrotar e escravizar as tribos inimigas, forçando-as com a derrota ao trabalho escravo.

Nos primeiros anos após a frota de Cabral com destino às Índias aportar na costa brasileira, cerca de três expedições deixavam Portugal anualmente com destino ao Brasil. Na escassez de aventureiros que se sujeitassem aos riscos da viagem, nessas expedições vinham muitos degredados. Na volta, alguns eram deixados à sorte; outros desertavam para viver junto aos nativos, da mesma forma como procederam muitos tripulantes.

Entre dezembro de 1503 e abril de 1504, foi erguida por Américo Vespúcio a primeira feitoria no Brasil, a de Cabo Frio, para apoiar a extração e o armazenamento do pau-brasil. Seus construtores faziam parte da segunda expedição, comandada por Gonçalo Coelho. Vinte e quatro homens foram deixados à sorte em terra, com mantimentos para seis meses.

Se nessas expedições alguns conseguiam sobreviver e formar família(s), dando origem aos primeiros mestiços mamelucos, outros não tiveram o mesmo destino: foram mortos ou mesmo devorados. Na própria região de Cabo Frio a resistência dos tamoios foi atroz.

No reinado de D. João III (1521-1557) o Brasil foi dividido em Capitanias Hereditárias, para garantir a posse da terra ameaçada pelos franceses, que exploravam a costa brasileira, contrabandeando o pau-brasil, monopólio da Coroa portuguesa.

Com a chegada dos primeiros colonos, a resistência do nativo torna-se ainda mais atroz e sangrenta. E muito sangue ainda seria derramado em todo curso da colonização do Brasil.

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