José Bonifácio de Andrada e Silva nasceu na cidade de Santos – SP, em 1763. Em 1783 mudou-se para Coimbra, como era tradição das famílias ricas da época, onde ingressou nas cátedras de Direito, Filosofia Natural e Matemática, com exímio desempenho. Depois de titulado foi conduzido à Academia de Ciência de Lisboa, em 1789, quando publica “Memórias sobre a pesca da baleia”. Nesse trabalho expôs suas primeiras inquietações com a forma irracional de explorar a natureza, sem sustentabilidade.

A repercussão do talento de Bonifácio levou a Coroa portuguesa a contemplá-lo com uma bolsa para o estudo de mineralogia, o que lhe permitiu conhecer os principais centros da Europa, durante um período que duraria 10 anos. Quando retornou a Portugal, em 1800, já se tornara reconhecido em todos os círculos das ciências no Velho Continente, pelo largo conhecimento adquirido em mineração e metalurgia. Nessa ocasião já dominava seis idiomas e lia em outros cinco, além de manifestar grande interesse nas questões do Estado.

Por essa razão é nomeado para vários cargos de governo e atividades acadêmicas, até ser aposentado e retornar ao Brasil, em 1819, aos 56 anos. No Brasil, tornou-se figura central contra as pretensões das Cortes portuguesas de restabelecer a submissão brasileira à Portugal, em moldes similares aos que precederam a chegada da família real, em 1808. Ao lado da princesa D. Leopoldina, grande amiga e confidente, articulou a declaração da independência do Brasil, em 1822, pelo príncipe regente D. Pedro.

Com a independência do Brasil é elevado ao cargo de ministro do Império e dos Negócios Estrangeiros. Preocupado em manter a integridade territorial brasileira, para evitar a ruptura, conforme nas colônias espanholas, dedicou-se a rebelar os focos internos da resistência portuguesa, sobretudo na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão, como também em construir um “projeto de Nação”. Nesse projeto, após demitir-se do cargo de ministro e assumir a cadeira de deputado por São Paulo, ainda em 1823, apresenta à Assembleia Constituinte a proposta de extinguir o tráfico negreiro e de abolir a escravidão.

Em discurso à Assembleia Geral Constituinte José Bonifácio diz ser “preciso que não venham mais a nossos portos milhares e milhares de negros…, que cessem de uma vez por todas essas mortes e martírios sem conta, com que flagelávamos e flagelamos ainda esses desgraçados em nosso próprio território. É tempo pois, e mais que tempo, que acabemos com um tráfico tão bárbaro e carniceiro; é tempo também que vamos acabando gradualmente até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações uma nação homogênea, sem o que nunca seremos uma nação verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes”.

As ideias de José Bonifácio suscitaram a reação escravista, o que ensejou-lhe um período de seis anos de exílio na França (1823/1829). Afirmativas como a de que “um senhor de terra é de fato pobríssimo, se pela sua ignorância ou desmazelo não sabe tirar proveito da fertilidade de sua terra, e dos braços que nela emprega” irritavam os traficantes e senhores de escravo. Outro ponto de conflito foi a ideia de retomar as terras improdutivas dos latifundiários e devolvê-las ao Estado, para que fossem subdivididas e redistribuídas “entre escravos libertos, mulatos e europeus pobres, em prol de uma reforma nos costumes da sociedade, da família e inclusive do clero”.

Também aventava pelo crescimento planejado das cidades, pelo uso racional dos recursos naturais, inclusive das águas, e preservação das florestas. Visionário, pensava na criação de escolas, de pelo menos uma universidade em cada uma das províncias e na interiorização da Capital no centro do Brasil, nas cercanias de onde seria construída Brasília. Por fim, foi nomeado por D. Pedro I como tutor do príncipe herdeiros, sendo posteriormente afastado por decreto, em 1833, quando abandou a vida pública.

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Economista, estudioso da história do Brasil e um grande crítico da política brasileira.

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